A Beatificação de Lúcia - A Vidente de Fátima

A beatificação é um acto de consagração ou ordenação de determinada pessoa  à categoria de: “Bem-aventurado”, por parte da hierarquia da igreja católica. Esta coisa da beatificação, ao estilo católico, é, como a canonização, anti-bíblica. mas o meu comentário irá noutro sentido. Irei considerar os argumentos para tal beatificação, à luz do Código Canónico católico.

O processo de beatificação é complexo e moroso, podendo levar dezenas ou centenas de anos até sua conclusão. Esse processo é regulado pelo Código Canónico católico, vigente desde 9 de Maio de 1918, com alterações efectuadas durante o pontificado do papa João Paulo II. Entre os vários requisitos para a beatificação do candidato estão os seguintes:

1) Apresentação de uma declaração de venerabilidade, atestando as suas virtudes heróicas;
2) Ter realizado um milagre, cuja ocorrência tem que ser certificada por uma comissão médica;

Comecemos pela realização do milagre. Oficialmente, a hierarquia da igreja católica não reconhece que tenha ocorrido qualquer milagre por parte de Lúcia. Mas a igreja católica irá dar um jeito. Assim aconteceu com os outros videntes. Estes foram beatificados sem haver um reconhecimento oficial de que tenha sido realizado qualquer milagre pela intercessão deles. Encontramos escrito numa notícia do Diário de Notícias do dia 11/10/2007:

“Vaticano tem dúvidas sobre o milagre dos dois pastorinhos. Especialistas duvidam de cura milagrosa que envolve criança diabética” que foi o milagre que sustentou a beatificação. A notícia continua dizer, com base nas palavras do Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, o cardeal português Saraiva Martins: “A canonização dos videntes de Fátima Jacinta e Francisco está ainda dependente da comprovação da cura milagrosa de uma criança com diabetes. Os peritos médicos do Vaticano estão insatisfeitos com o alegado milagre que sustenta o processo de atribuição do estatuto de santos aos pastorinhos e vão pedir novos dados. Se estes forem inconclusivos, será necessário outro milagre”.

É prática secular da igreja romana dar “um jeito” de modo a atingir certos fins, especialmente o de agradar às massas. A evolução doutrinária e dogmática é fruto desses “jeitos”, que são muitos. Tantos que a igreja católica se distanciou muitíssimo das Sagradas Escrituras. Com efeito, na prática, a igreja católica desvirtuou a mensagem do Evangelho e a doutrina apostólica. O que manda na igreja católica é a Tradição – as crendices e superstições populares, e o Magistério – as doutrinas e orientações produzidas pelos bispos, cardeais e papas no Vaticano. O princípio de agradar às massas é contrário ao princípio divino e à postura dos Apóstolos. Por exemplo, o Apóstolo Paulo, tido pela igreja católica como uma referência para a doutrina e prática da igreja, afirmou: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho. O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que vos tenho anunciado, seja anátema. Assim como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho do que já recebestes, seja anátema. Porque persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens; não seria servo de Cristo”. (Gl. 1:6-10). A razão dos martírios a que os Apóstolos e primeiros pastores foram sujeitos, foi porque, especialmente, não cediam às crenças e superstições populares.

Mas a questão da realização de milagres leva-nos para outra discussão que é a seguinte: Será que o facto de acontecer milagres significa que um dado culto ou fenómeno religioso tem a aprovação divina? Será que todo o milagre tem origem em Deus? Tem a mão de Deus?

Na verdade, na Bíblia Sagrada mostra-nos a possibilidade de haver milagres que não tem origem em Deus, nem a Sua aprovação. Convido o leitor a ler os textos bíblicos que passo a referenciar:
Dt. 13:1-6: Pessoas que fazem milagres e incitam ao culto aos outros deuses;
Êx. 7:8-12: Mágicos, servos do pagão Faraó, a fazer milagres idênticos aos operados por Moisés;
Mt. 24:24: Jesus fala de falsos Cristos e falsos profetas que fazem milagres;
II Ts. 2:3-10: alguém que é descrito como sendo o homem do pecado, filho da perdição, iníquo, opositor de Deus e de tudo que Lhe pertence; um homem que usurpa o trono de Deus e finge ser Deus; um homem que vai ser aniquilado pelo Senhor Jesus em Sua volta em glória, diz que faz sinais e prodígios isto é, milagres. E o texto também nos informa por que poder ele opera os milagres: segundo a eficácia de Satanás. O poder é de Satanás, não de Deus. São milagres de mentira, para enganar;
Os. 4:12: Um espírito de luxúria, um espírito imundo é o obreiro do milagre.
Pelo que, o facto de, eventualmente, ocorrerem milagres, por meio da suposta intercessão dos videntes de Fátima, não significa que essa intercessão tenha o cunho de Deus, o Deus da Bíblia.

Quanto ao requisito “atestado de virtudes heróicas”, a questão que se coloca é esta: que virtudes heróicas realiza uma pessoa que está enclausurada desde a sua meninice até à morte? Ou será que a virtude heróica de Lúcia foi conseguir estar todos esses anos em clausura?

A clausura é outro aspecto que contraria a vontade e o propósito de Deus para os Seus santos, que é o deles estarem integrados na sociedade, vivendo no meio dos outros, sendo sal da terra e luz do mundo. O sal só tempera se estiver fora do saleiro e a luz só ilumina se estiver exposta (Mt. 5:13-16). Os santos de Jesus são exortados a não estarem fora do mundo mas estão presentes neste para testemunharem Dele e a brilharem com as suas vidas (Jo. 17:14-18; Fp. 2:15-16; I Ts. 1:5-9). Essa foi a postura do Santo dos santos, Jesus. O Verbo divino, deixou o céu, tomou carne e habitou entre os homens, tocou neles e foi tocado por eles (Jo. 1:14; I Jo. 1:1-3). Não viveu em clausura, voluntária ou forçadamente. E os Seus seguidores tiveram o mesmo comportamento. Estes, sim, foram verdadeiros heróis da fé porque pela sua vida o Evangelho da Salvação em Cristo foi proclamado a todas a nações do mundo conhecido de então, arrancando muitas almas da condenação para o Reino de Deus, com o sacrifício de suas próprias vidas. Feitos heróicos que perduram.

É interessante observar que a vidente Lúcia, ao que tudo indica, vai ser beatificada antes do tempo que a lei canónica regulamenta, como Madre Calcutá, mas num tempo ainda menor que esta. Para a igreja católica estar enclausurado é mais digno de honrarias do que passar a vida inteira dedicada entre os pobres, para minimizar o seu sofrimento.